POR QUE DIVULGAR CIÊNCIA?

POR QUE DIVULGAR CIÊNCIA?

‘O orçamento está curto’, ‘Não tem dinheiro para mais bolsas’, ‘Salário de professor atrasado’, ‘Reforma da previdência’, ‘Mas, você só estuda?’, ‘Boletos, contas’, ‘Bolsa sem reajuste’, ‘Quando vai começar a trabalhar?’ Quem faz pós graduação com certeza já se sentiu contemplado/revoltado/desesperado quando ouviu alguma dessas frases.Temos visto diversas reportagens e notícias de agência de fomento divulgando que não tem dinheiro para novas bolsas em 2020, que o orçamento esta curto.


Não da pra colocar a culpa no atual governo, a crise orçamentaria na pós-graduação e incentivo a pesquisa já estava predestinada a acontecer antes mesmo do novo presidente tomar posse. E para piorar, parece que ainda não há uma solução da nova administração.


Ai vem a dona Maria e pergunta… ‘Mas você só estuda minha filha?’ E o seu João ainda completa: ‘Quando vai arranjar um emprego de verdade?’ A realidade é que a gente sente que ninguém entende o que fazemos.
‘Meu filho faz mestrado/doutorado’, ‘Nossa, então deve ser muito inteligente’. Fim de conversa.


Recentemente, o próprio ministro da educação Vélez Rodríguez declarou: ‘…As universidades devem ficar reservadas a uma elite intelectual…’. Na entrevista, o ministro defende o investimento e reforma do ensino médio em função de um ensino mais técnico, um meio de retorno econômico mais rápido.


A declaração me causou uma certa revolta e ao mesmo tempo uma tristeza. Apesar do sistema de cotas, ainda temos universidades públicas onde a maioria dos alunos estudaram em escolas particulares e tiveram mais oportunidade de ensino de qualidade. Não que os professores da rede pública sejam ruins, mas a precariedade de condições desmotiva.
Ir pra pós graduação é praticamente um ato de coragem. São 4/5 anos de graduação e mais 6 anos até o fim do doutorado. É um baita investimento pessoal. Por esse motivo, não acho errado o investimento no ensino técnico.


A realidade do Brasil não é a minha realidade.


Pós graduação não tem plano de saúde, não tem décimo terceiro, não contribui pro INSS.


Morando e estudando no interior, sustentando a mim mesma e um coelho, podendo gritar socorro a família (que ainda paga meu plano de saúde) é fácil fazer pós. Seria eu parte da elite intelectual? Acho que sim.


Mas há sonhos! Infelizmente as coisas são caras, os sonhos são grandes, os boletos só aumentam, a idade pesa, o governo desmotiva. Além disso, há uma pressão pessoal enorme para fazer mais e fazer rápido, pra ser e ter, do qual a pós graduação parece não comportar.


E aí a gente repensa. Se investimento em educação não tem retorno nem da população, nem do governo e as vezes muito menos pessoal (o índices de problemas de saúde mental na pós graduação são elevadíssimos). O QUE EU TO FAZENDO AQUI?


É aí que a divulgação científica entra. Normalmente (e aí vem a beleza da coisa), o pesquisador desenvolve um experimento, seja ele teórico ou prático, em benefício da sociedade.


É um propósito maior do que simplesmente o lucro, retorno financeiro rápido ou qualquer coisa do tipo.
É nesse propósito maior que foram inventados vacinas, telecomunicações, estudo do DNA, compreensão de diversas doenças e remédios, máquinas, eletricidade (ELETRICIDADE!), teorias físicas, entre outros. O avanço científico da acadêmia sempre tem o intuito de avanço social.

Convenhamos, você acha que estaria lendo esse texto se não fossem as telecomunicações e você poderia nem estar aqui se não fossem as vacinas. Saiba que existem milhões de Einsteins, Darwins, Teslas, Edisons, por aí. São pequenos tijolinhos que constroem uma parede.


E aí escrevemos artigos que muitas vezes se perdem no limbo, que são tão difíceis para compreensão da ‘elite intelectual’ que dirá pra dona Maria!!! E nos perguntamos, porque fofoca, porque a vida da fulana x com o fulano y, a ‘futilidade’ tem muito mais cliques e gera muito mais interesse do que um livro. It’s 2019!!! A comunicação evoluiu.


As pessoas não vão abrir o Google Scholar, abrir um artigo de 20 páginas, em uma língua que elas muitas vezes não entendem e tentar decifrar (sim, decifrar) o que é aquilo que a filha do seu José está fazendo.


Seu trabalho e seu tempo tem valor! Joga pro mundo! Faz um vídeo no youtube, explique de uma forma leve, conta nos stories, muda a forma mas entrega o conteúdo!


Os jovens tem muitas distrações hoje em dia, o que um professor (e muitos da pós seguirão esse caminho) faz para manter a atenção. Quem sabe você não incentiva UMA pessoa a fazer faculdade, a se qualificar, a faz uma pós! Faz uma série Netflix da sua pesquisa. Sei lá! Desenha. O nosso governo é muitas vezes o reflexo da nossa sociedade. Quem sabe o incentivo financeiro não aumente e mais pessoas comecem a produzir ciência?!


Obviamente ninguém precisa criar um blog, um canal, nada disso, isso gera um trabalho extra além do já necessário na pesquisa (os divulgadores de ciência que não ganham nada a mais por isso que sabem bem disso). Mas, e se você tentasse contar pra dona Maria de uma forma mais simples o que faz? Assim, em 2 minutos. E aí, quem topa o desafio?


Beijos de luz,

(foi dessa revolta que o blog nasceu! E é um desafio diário pensar em trazer formas mais simples e leves de levar informação, mas eu acredito no conhecimento acessível!! E é por isso que estamos ai, sem muita periodicidade, fazendo quando dá, mas tentando!)


Mariane Neiva.

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